|
Sem rodeios, direta. Para um político tradicional, isso
atrapalharia a carreira. Mas para a vereadora de São Paulo
e apresentadora de TV Soninha Francine,
que acaba de se filiar ao PPS, essas características fazem
a diferença. Dão a ela um ar despojado, uma abertura maior
no contato com o cidadão, coisa rara no atual cenário
político.
Soninha também não demonstra apego ao poder,
principal ponto de partida para a degradação de costumes e
ideais. Aceitou disputar a prefeitura de São Paulo pelo
PPS, mesmo acreditando estar entrando na disputa com
poucas chances. E por que? Porque quer ser útil, responde.
Num país onde apenas 11% da população acredita nos
políticos, a simplicidade de ser "útil" é uma grande
vantagem. Afinal, o vereador, o prefeito, o deputado, o
governador, o senador, o presidente, todos eles, são
servidores públicos, fato na maioria das vezes esquecido,
eleição após eleição.
Soninha não é daqueles que cansou, muito menos do
time dos que "sempre foi assim". Ela acredita na
capacidade de mudança por meio da política, no fazer a
diferença. Preza a independência e, o mais importante, tem
tesão no que faz. "É preciso dar motivo às pessoas
voltarem a acreditar na política", diz.
Nesta entrevista ao Portal do PPS*
ela fala sobre os motivos do ingresso no partido, de sua
candidatura a prefeita, de seus projetos para São Paulo,
da saída do PT, da relação com o governador José Serra e,
principalmente, de sua visão do que é a atuação política.
E, nesse ponto, direta e simples, resume o que parece
impossível de se colocar na cabeça de muitos dos figurões
da política brasileira. Ao ser questionada sobre a
fidelidade partidária, responde na bucha: "Acho que os
partidos precisam ser fiéis a si mesmos, para começar".
Conversar com Soninha é diferente de uma entrevista
normal com um político. É como assistir o atacante Kerlon
do Cruzeiro fazendo embaixadinha de cabeça, na frente do
zagueiro, sem medo de levar porrada. Uma demonstração de
que "foca", mesmo na disputa política, sabe driblar.
Portal – O que pesou na escolha do PPS como
partido a ingressar depois de uma longa temporada no PT?
Soninha – Desde a primeira
abordagem eles (dirigentes do partido) fizeram uma
proposta muito sedutora pra mim que é a garantia de
independência. A frase que eu ouvi era, literalmente,
venha ser independente com a gente porque a maior
dificuldade em qualquer lugar em que eu estiver é de ser
obrigada a defender o que eu não acredito, entendeu? Ou de
ser obrigada a me opor ao que eu concordo. Eu vejo que,
muitas vezes, num partido é isso que esperam de você: que
você deixe uma parte de suas convicções na chapelaria, na
entrada e ai, em nome de um projeto maior para daqui a
dois anos, você vota contra uma proposta que, em
princípio, você seria favorável, sabe? Então, me
conhecendo muito bem, porque acompanharam esse meu tempo
aqui de mandato na Câmara, disseram que o que em outros
lugares seria problema, no PPS, seria muito bem vindo
porque a idéia é debater, a idéia é ter posições claras,
forte. É de problemas como você que a gente precisa. Achei
muito legal.
Portal - Que problemas?
Soninha - Da parte do próprio
presidente do partido, numa coisa já mais específica,
dizendo o quanto ele acha que algumas posições que defendo
são muita caras ao partido, muito importante, uma
discussão mais progressista de alguns temas polêmicos como
drogas e aborto. Ele disse que ninguém no partido é
obrigado a concordar com isso, ou seja, provando aquilo
que me prometeram: que as pessoas têm o direito de ter
idéias diferentes. Mas que a posição do partido é a favor
da descriminalização do aborto, por exemplo. Então,
sabendo que eu não fujo de temas controvertidos porque
isso pode pegar mal pra mim ou coisa parecida, que é uma
qualidade que eles desejavam ter com eles. Muito legal. A
conversa nem começaria, caso não tivesse socialista no
nome. Claro que eu só cogitaria entrar num partido que
fosse de esquerda, para começar. Ai, finalmente, o que foi
decidido foi a proposta de disputar a prefeitura de São
Paulo e poder colocar nossos temas, fazendo nosso debate,
com uma outra linguagem, com outro formato, diferente das
outras campanhas.
Portal - Você vem afirmando que entra com
poucas chances na disputa pela prefeitura paulistana. Para
quê disputar?
Soninha - Na verdade, ver pouca
chance é só uma análise realista. Não é um desejo. É claro
que eu vou disputar como se eu pudesse ser a prefeita. E
se eu ganhar a eleição? Ótimo! Não é como em algumas
eleições que as pessoas entram para marcar posições,
apenas para fazer o nome, pensando numa outra disputa
daqui a dois anos. Entro para disputar e a disputa tem um
grande valor em si. É diferente de você ter obsessão para
vitória. É claro que disputo uma eleição querendo ganhar,
não tenha dúvida. Mas a obsessão pela vitória leva a uma
porção de escolhas erradas já na campanha eleitoral porque
você já fica pensando que para viabilizar seu nome você
precisa dessa aliança, desse reduto, precisa desse campo.
Então, você vai agregando várias coisas a sua campanha só
para ganhar e você vai diluindo sua proposta, você vai
perdendo identidade. Vai deixando as coisas meio confusas.
Essa é que é a diferença. Eu já me vejo com um puta tesão
assim nos próximos meses, discutindo programa de governo.
Portal – A decisão em disputar um mandato no
executivo tem alguma relação com fato de não você não ter
conseguido implementar várias de suas idéias no
legislativo?
Soninha – Mais ou menos. Algumas
coisas eu não conseguiria fazer no legislativo porque não
são da nossa alçada. Não é uma frustração pessoal. São
atribuições diferentes. Eu amei esse tempo que eu tive e
que eu ainda tenho aqui como parlamentar, com tudo que
teve de sacrificante e frustrante. É sensacional essa
experiência de ser parlamentar na Câmara Municipal de São
Paulo, apesar de tudo o que me queixei e ainda vou me
queixar até o fim do mandato. A frustração é inevitável e,
às vezes, é surpreedente. Mas é diferente. O executivo tem
um raio de ação maior, mais direto, mais palpável. Muita
coisa que a gente consegue aprovar no Legislativo, através
de projeto de lei ou de inclusão no orçamento, quem vai
agir de fato é a outra esfera. Não é que eu esteja
procurando um consolo para uma frustração pessoal. É só
vontade de ser útil de uma outra forma e em um outro
lugar.
Portal – Levantamento realizado pela
Associação dos Magistrados do Brasil aponta que apenas 11%
das pessoas acreditam nos políticos. Como fazer para mudar
esse quadro?
Soninha – Tem dois problemas sérios
ou três, talvez. Vou fazendo a lista, pode ser que aumente
o número. O primeiro é que, ao logo dos anos, a política
deu muitos motivos para as pessoas desacreditarem nela. Ou
por causa de casos de crime, de desvios, de corrupção ou
por causa da incoerência, que também tem um grau de
desonestidade porque quando você muda de opinião, conforme
a posição que você está: governo ou oposição, sabe? As
pessoas continuam tendo mil razões para desacreditar na
política. Mas não é só isso. Também tem o fato de que só
lhes é dado conhecer o lado ruim da política. A pessoas
acompanham a política basicamente pela mídia, pela
televisão, pelos jornais. E dentro da lógica
supercontestada, mas, superconsagrada de que notícia ruim
é que é notícia, tudo que as pessoas sabem da política é a
parte ruim. Então, fica difícil mesmo elas acreditarem. A
gente tem um desafio muito grande. Primeiro, é traduzir
política para as pessoas. Num caso de desvio ou de
corrupção é muito fácil entender. E ninguém sabe como
funcionam as coisas. Você deve explicar o que é e como
funciona (a política) para que as pessoas tenham mais
instrumentos para avaliar o que é um político bom ou um
político ruim.
Portal – Como pré-candidata pelo PPS à
prefeitura de São Paulo você pode adiantar qual será a
principal bandeira de sua campanha?
Soninha – Eu tenho formação no
Magistério. Então quando se faz um plano de curso, por
exemplo, começa lá pelos objetivos gerais, os específicos
e depois detalha o conteúdo das matérias. No objetivo
geral tem tudo a ver com a pergunta anterior que é dar
motivo às pessoas voltarem a acreditar na política, na
importância dela e acreditar que podem ser bem
representadas. É fundamental demonstrar que não se tem um
ou, no máximo, dois jeitos de fazer as coisas, de ser
político, de defender bandeira, de construir plataforma. É
um objetivo que eu acho nada desprezível. Num objetivo
mais específico, pensando na cidade de São Paulo, existem
vários modelos que a gente precisa rediscutir. Mas têm
dois eixos principais, que é o eixo da mobilidade, ou
seja, a maneira como as pessoas se deslocam nesse monstro
de cidade, da saúde das pessoas, expectativa de vida
porque o que você lança no ar de partículas reduz a
expectativa de vida da população numa média de três anos.
É assombroso, é intolerável. A qualidade de vida das
pessoas é muito ruim quando se passam seis horas dentro de
um ônibus, todos os dias! Esse eixo da mobilidade é
determinante. O outro eixo é o da ocupação da cidade. Você
tem o centro com toda a infra-estrutura, teatro, praça,
escola, transporte coletivo abundante e onde, cada vez,
menos gente mora. Ao mesmo tempo na periferia onde muita
gente mora e onde não tem hospital, não tem parque. Você
tem que promover a reocupação do centro da cidade e ao,
mesmo tempo, gerar o desenvolvimento nesses outros
lugares. Numa frase curta é morar perto do trabalho e
trabalhar perto de casa. Isso faz uma diferença brutal na
vida de milhões de pessoas.
Portal – Você guarda alguma mágoa do PT ou
do presidente Lula?
Soninha – Mágoa, não! Jamais usaria
a palavra mágoa. Aliás, acho que é um problema sério as
pessoas tornarem as coisas pessoais, sentimentais, sabe?
Não é que não tenha paixão no que a gente faz. Tive
milhões de divergências no PT, alguns quebra-paus mais
sérios, às vezes, decepções e incoerências, mas sem
mágoas, sem carregar ressentimento. Não vou virar a
inimiga número um do PT. Só que vou dar minha batalha num
lugar legal.
Portal – É verdade que o bom
trânsito junto ao governo estadual tem causado alguma
espécie de ciumeira nos tucanos locais?
Soninha – Duas coisas: eu tenho um
bom relaciomento pessoal com o (governador José) Serra,
por amizade, de palmeirense e completamente à margem da
política. E também tenho um bom trânsito com ele na
política, o que não quer dizer que não tenhamos nossos
embates, nossas divergências e quebra-paus. Quando ele era
prefeito, consegui persuadí-lo de vários coisas e tenho
isso como uma super-vitória. E não persuadí-lo porque ele
é meu amigo, mas porque o convenci da importância de
algumas coisas que ele manteve da gestão anterior. E em
outras coisas a gente continua absolutamente divergentes.
Ele vetou vários projetos de lei de minha autoria. Quanto
à ciumeira, tudo é possível, mas não faço idéia. Eu acho
até estranho que haja algum ciúme por conta da candidatura
porque o que muda para eles nesse primeiro momento?
Portal – Já passou pela cabeça algum dia
disputar a presidência da República?
Soninha - Não, de verdade não! Acho
que toda criança que já se importou com o mundo, lá pela
terceira ou quarta série pensou: se eu fosse presidente da
República eu faria isso e aquilo. Mas não consigo imaginar
construir um longo caminho para chegar lá. Não é um
projeto.
Portal – Vou propor um bate-bola mais
rápido. Coloco algumas temas e você me responde mais
resumidamente, ok?
Soninha – tá!
Portal - Aborto.
Soninha – Não sou a favor da
prática, mas a favor da descriminalização.
Portal – Fidelidade partidária.
Soninha – Acho que os partidos
precisam ser fiéis a si mesmo, para começar. O troca-troca
utilitarista é imperdóavel, mas algumas trocas são
facilmente compreendidas.
Portal – Futuro do jovem.
Soninha – (Risos) É difícil dar uma
resposta curta (uma pausa)
Portal – Então pode se estender...
Soninha - Os jovens costumam levar
a fama injusta de serem os menos interessados em política.
Geralmente comparam os de hoje com os do anos 60 para
concluir que aqueles eram engajados e os de hoje são
alienados. Acho injusto. Os jovens são os mais
interessados, os que mais se perguntam o que eu posso
fazer e como. E nos oferecem a idéia de outras forma de
organização e de militância. O futuro do jovem é construir
cada vez mais outras forma de engajamento e de militância.
(* Por William Passos, do Portal do PPS na
Internet)
|