Novo rumo para São Paulo
 
PPS: No começo de julho, durante o anúncio oficial da coalizão PPS/PSDB/PFL, o senhor anunciou algumas vantagens desta união, como o maior tempo do candidato Serra na TV. Quais são de fato as identificações programáticas entre os partidos?

Arnaldo Jardim: A identidade programática entre o PSDB e o PPS começa pela afinidade histórica entre os socialistas e os social-democratas e se estende numa visão comum em relação à Reforma do Estado, defendida pelos dois partidos, em especial pelo candidato José Serra. Essa afinidade, também encontra amparo na necessidade de apresentar a população uma política econômica alternativa ao modelo praticado pelo ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, e reeditado pelo atual ministro Antonio Palocci. Vale lembrar que Serra sempre deixou clara sua divergência em relação a esta política econômica, mesmo fazendo parte do governo FHC.
No âmbito da cidade de São Paulo, também existem outros aspectos mais precisos e pragmáticos que sedimentam a identificação do PPS com a candidatura de José Serra. Primeiro, na visão da radicalidade democrática, incorporada pelo PPS, e que encontra respaldo nos compromissos manifestados pelo candidato do PSDB. A necessidade da administração pública de buscar, cada vez mais, delegar à sociedade responsabilidades, por meio do estabelecimento de políticas de descentralização político-administrativas profundas. Além disso, temos em comum a ótica republicana das instituições, simbolizada pelo combate ao “aparelhismo” e a manipulação política que, infelizmente, tem sido praticada pela atual administração na Prefeitura de São Paulo.

PPS: Como o processo de descentralização do perfil econômico em São Paulo poderá ser concretizado na nova administração municipal?

AJ: Num primeiro momento, a descentralização mais importante que devemos buscar não é tanto do perfil econômico, mas em relação à questão político-administrativa. Defendemos que as subprefeituras atuem como verdadeiras prefeituras regionais, onde o seu administrador seja indicado por uma lista tríplice a partir de uma consulta prévia à sociedade local, e a mesma sociedade, por meio de conselhos, tenham poder de atuação e contar, inclusive, com um instrumento de sanção sobre os administradores. Além disso, propomos que o desdobramento desta descentralização aconteça também no âmbito da proposta orçamentária.
Com relação à descentralização do perfil econômico, cito como o exemplo a Zona Leste, onde temos defendido, anteriormente a nossa campanha e agora durante a coligação, que é necessário reconceituar e redefinir toda uma política para esta importante região da cidade de São Paulo. Não há como uma região que congrega cerca de 33% da nossa população, continue a responder por apenas 8% dos postos de trabalho na cidade de São Paulo.

PPS: A busca do reordenamento habitacional na periferia da capital, a reestruturação urbana e a geração de trabalho foram alguns pontos citados pelo senhor na ocasião. O que as coordenadorias do PPS, PSDB e PFL já têm acertado entre si a este respeito?

AJ: Questões como o reordenamento urbano e econômico e a geração de empregos deverão ser premissas do programa de governo para a cidade de São Paulo. Precisamos concentrar esforços para elaborar uma proposta que integre estes três temas.
Primeiramente, no quesito reordenação urbana, vamos buscar criar postos de trabalho próximos aos locais de moradia. Neste ponto, temos muitas restrições ao Plano Diretor aprovado recentemente pela Câmara Municipal, pois consideramos que a sua aprovação aconteceu de forma precipitada, sem o debate necessário, quer seja pelo Plano Diretor da cidade como um todo, quer seja para os Planos Regionais Estratégicos. Neste sentido, defendemos a revisão deste Plano, antes de sua implementação definitiva, para que possamos promover um debate embasado por uma visão abrangente da cidade de São Paulo.
De qualquer forma, está claro, ao meu ver, para o nosso partido e para a coligação que a proposta para Zona Leste, somada a questão do adensamento urbano no cinturão em torno do chamado centro velho, são questões estratégicas no sentido de aproximar os componentes moradia, ocupação econômica e geração de emprego.  

PPS: Como será possível reorientar a visão utilitarista do poder praticada hoje na cidade? 

AJ: A reorientação desta visão “aparelhista” no poder, ou manipuladora em alguns casos, será feita, ao meu ver, pelo chamado conjunto da sociedade civil organizada no sentido de promover uma maior aproximação com as esferas de poder da prefeitura. Precisamos fazer com que os conselhos municipais funcionem para valer, ao nível das hoje denominadas subprefeituras, a exemplo do que acontece hoje com o Condeca – Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente. Ou seja, transformar estes conselhos em uma instância efetiva de debate, e não uma formalidade, como tem ocorrido muitas vezes.
Também precisamos reconceituar e redefinir o relacionamento entre os poderes Legislativo e Executivo, a fim de evitar que práticas como a distribuição indiscriminada de cargos sirva como moeda de troca e cooptação em detrimento ao interesse público.  

PPS: Qual seu prognóstico sobre o quadro político municipal ao final desta disputa eleitoral? E qual deverá ser o papel do PPS neste panorama? 

AJ: Estou convicto da vitória de José Serra nesta campanha municipal, principalmente, diante da aceitação e da aprovação do eleitorado paulista durante este período de campanha. Essa vitória terá uma repercussão óbvia no quadro político nacional, e simbolizará uma mudança significativa na condução política do principal centro econômico do País. Depois de um longo “período malufista” à frente da capital paulista, havia uma expectativa em torno da gestão petista de Marta Suplicy que não se concretizaram. As mudanças profundas de exercício do poder, do conceito de como isto deve ser feito, da relação entre prefeitura e sociedade, não se alterou substancialmente neste período. Então, a minha expectativa é que isto possa ocorrer com a eleição do Serra.
Ao meu ver e sem pretensões, o PPS tem o papel de sal na terra neste panorama eleitoral. Através da mobilização na campanha e do seu papel propositivo no debate em torno da elaboração do programa de governo, o PPS tem sido aquele partido que tem apimentado, dado sabor a muitas das coisas que tem ocorrido. Sinto que houve uma receptividade muito positiva do PSDB em relação a nossa presença dentro da campanha, e um certo “sentimento de reencontro” – como bem resumiram José Serra e Roberto Freire, durante o Ato de Coligação. Espero que isto possa ser um sinal, não só de uma boa convivência, mas de uma ação política efetiva para modificar a situação na cidade de São Paulo, por meio da participação do PPS no futuro governo. O PPS cresce neste processo, pois o partido terá um papel muito mais significativo do que tem desempenhando nos rumos da nossa São Paulo.  

PPS: Comente o lançamento do site do diretório municipal do Partido.

AJ: Estou absolutamente entusiasmado com o lançamento do site do Diretório Municipal do PPS. Esta iniciativa consiste num instrumento importante, moderno e ágil, que adquire sentido quando colocado a serviço de uma substância política, e é isso que foi construído pelo Diretório Municipal. Tenho um orgulho muito grande, daquele que tem sido o núcleo dirigente deste Diretório, de sua executiva e da presidência de Carlos Fernandes, que têm emprestado um novo vigor ao PPS na cidade de São Paulo.
Tivemos, recentemente, um processo difícil, muitas vezes dolorido, de disputa interna, mas que acabou por consolidar uma visão política, e hoje hegemônica, dentro do partido. Mais do que isso, a visão que se pratica é uma visão com a qual tenho total identidade, portanto, quero saúda-la, pois ela visa fortalecer o papel político do PPS na capital paulista.
Sabedor de nossas deficiências; sabedor que ainda temos algumas regiões na cidade que o partido precisa ser reorganizado e reimplantado; e sabedor que boa parte do nosso contingente ainda não tem o hábito de consultar periodicamente instrumentos de comunicação, como este site; tenho consciência das dificuldades, mas tenho, hoje, a certeza que podemos enfrenta-las e superá-las no sentido de fortalecer o PPS de São Paulo. E neste processo, o site será uma ferramenta importantíssima.





Arnaldo Jardim,
líder da bancada do PPS na Assembléia Legislativa de São Paulo.